domingo, 12 de abril de 2009

Cassandra Rios



Filha de espanhóis, nascida e criada no bairro paulistano de Perdizes, Cassandra Rios se chamava, na verdade, Odete. Assinava seus livros sob pseudônimo por motivos óbvios, que o tempo comprovou: Cassandra teve, ao longo de sua carreira, 36 dos seus livros proibidos pela censura do regime militar.


O sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios, no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma direta e sexualmente explícita.


Tamanha ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos.


Populares, em prosa simples quando não vulgar, veiculadas em livros baratos com capas provocantes e títulos chamativos, suas obras surpreendiam e cativavam um vasto número de leitores. Cassandra Rios chegou a vender 300 mil exemplares em um ano, transcendendo o público exclusivamente lésbico ou mesmo feminino.


A homossexualidade só aparecia, na literatura do final do século XIX e da primeira metade do XX, associada a três tabus: o pecado, a patologia e o crime. Esses elementos não estão ausentes da narrativa de Cassandra; pelo contrário: aparecem como formas de preconceito que suas personagens enfrentam. Por isso, as minorias sexuais, que não eram sequer pensadas como tal no Brasil daquela época, perceberam naqueles livros uma oportunidade de verem retratados aspectos de seu cotidiano


O primeiro romance de temática lésbica a alcançar repercussão nacional foi o livro de estréia de Cassandra Rios, A volúpia do pecado, lançado em 1948. Nele, as personagens Lyeth e Irez buscam no dicionário um termo que defina seu comportamento — elas próprias questionavam a normalidade de um amor diferente dos padrões de sua época.


Em Eudemônia, de 1956, o panorama é diferente: a protagonista vai parar em uma clínica psiquiátrica. Por trás da trama erótica, o que se lê é um retrato do fenômeno da divulgação da psicanálise, em especial da chamada “questão sexual”. Nessa história, a lésbica assumida se submete a um tratamento clínico que considera seu comportamento uma perversão sexual.


Em Eu sou uma lésbica, de 1979, um baile de carnaval revela a postura mais assumida de gays e lésbicas, o que gerava forte reação contrária. A personagem vê um casal ser retirado à força do salão: “Meu carnaval estava acabado. (...) A bicha, gritando com sua voz esguaniçada coisas que eu nunca ouvira antes, sendo posta para fora; a machona, carregada pelos guardas escada abaixo”. Essas atitudes ainda eram encaradas como caso de polícia.



Na maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979), em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo. Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino.


Em tempos de “politicamente correto”, se comparados à literatura lésbica atual, seus escritos podem parecer moralistas ou mesmo condenatórios ao lesbianismo.Afinal, ela se utilizava dos códigos culturais vigentes, cheios de preconceito, para narrar experiências afetivas fora dos padrões da sociedade heterossexual. Lançava mão de termos comuns aos estereótipos com os quais a sociedade, de maneira geral, se referia às homossexuais, como “machinha”, “sapatão”, “corça” e lésbica.Mas esta escolha de narrativa, longe de significar moralismo, revela um caráter transgressor, uma opção pelo enfrentamento: utilizar os códigos conhecidos para compor uma nova abordagem do tema. A intenção é inserir o amor entre mulheres e a existência destas personagens no mundo concreto.


Cassandra Rios faleceu a 8 de março (Dia Internacional da mulher) de 2002, em S. Paulo. Suas obras irão predominar no mundo Lés, ou até mesmo os heteros que tenham um bom gosto para leitura se pararem para ler algum de sus livros, irão certamente se apaixonar por sua literatura.

“Ultrapassadas” ou “pornográficas Cassandra Rios apresentam um quadro mais verossímil da situação social e emocional das lésbicas de seu tempo.








11 comentários:

  1. interessantissimo, mas não deve ser facil encontar livros dela =/

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  2. Hoje com 49 anos comecei a lêr Cassandra com 17 anos em Portugal,bem haja por teres existido.Manuela Araújo

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  3. Olá!!! Cherrie, achei seu blog muito mara!
    rs.rs.rs...
    Os livros dessa moça são super difíceis. Mas algumas pessoas colecionam livros, então fica mais fácil. rs.rs.rs...

    Queria parabenizá-la pelo blog... Hihi!
    E convidá-la para participar da campanha contra DSTs entre lésbicas. Se quiser saber mais: http://mulheresdecueca.com.br/SEXO%20ORAL%20e%20as%20doen%C3%A7as%20sexualmente%20transmiss%C3%ADveis.htm
    Acho essa "matéria" bem interessante. E, se quiser participar e quiser fotografias, estou disponibilizando-as para quem quiser. Somente peço que me envie um e-mail: eu.em.algum.lugar@gmail.com
    xD
    Beijokinhas

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  4. PARABÉNS SEU BLOG É ÓTIMO!!!
    ADOREI,REALMENTE OS LIVROS DELA SÃO MUITO DÍFICEIS DE ACHAR,ATÉ AGORA SÓ TENHO O "EU SOU UMA LÉSBICA" O QUAL EU JÁ LI OITO VEZES.
    PARABÉNS PELO BLOG ESTÁ MARAVILHOSO!!!

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  5. Putz, eu li o livro "A serpente e a flor" mtooo massa.Quase tive um troço, digo logo.

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  6. Um dia por acaso ,dei de cara com um livro da cassandra (MARCELA)em um sebo ,comprei não muito empolgada. apartir dai comecei uma corrida em todos os cebos da cidade , a procura de seus livros ,ja consegui 13 ,amo todos ,mas meu preferido é o gamo e a gazela ...demais Cassandra forever

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  7. Eu também não te entendo. Não entendo como pode gostar de uma coisa tão esquisita. Porém te aceito e gosto de você assim.
    Ela sorriu e encerramos a conversa.
    ___________________--

    Nooossa Bebel..arrasou amiga!!!

    bjss

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  8. NOOOSSSAAAAA ARRASSOUUU!!!!EU TENHO MAIS DE 20 OBRAS JÁ PERDI TRÊS DELAS EMPRESTANDO À COLEGAS MAS, MESMO ASSIM EU CONTINUO MULTIPLICANDO CADA VEZ MAIS A LEITURA DE SUAS OBRAS PARA OUTRAS PESSOAS."MACÁRIA" É TUDOOO DE BOMMM SEGUE À TODOS BOA LEITURA!!!BJKAS FUI...

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  9. Que pena que só agora conheci suas obras, Cassandra foi amiga de uma grande amiga minha. Pena que não nos conhecemos antes! agora estou penando para achar suas OBRAS.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Olá! Recentemente li dois livros da Cassandra Rios, que foram "Eu sou uma lésbica" e "Carne em delírio". Gostei muito de ambos e estou feito louca procurando outros livros dessa escritora pela internet. Não encontrei outros além desses até agora e queria pedir que, quem tiver eles em pdf ou word para ler em pc...Me contatem pelo seguinte email: poetadasfases@hotmail.com

    Ficarei muito agradecida! esperarei alguma comunicação e responderei certamente.

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